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Porque sou antipositivista

  • Writer: Juan Costa
    Juan Costa
  • May 4, 2020
  • 4 min read

Updated: Feb 14, 2022

Les morts gouvernent les vivant


A axioma de August Comte (expressa em seu livro catéchisme positiviste, 1851): "Os vivos são sempre, e cada vez mais, governados pelos mortos"; expressa a mais simples definição da filosofia positivista. O autor seria colocado, postumamente, na maior expressão simbólica de uma nação: "ordem e progresso", diz o lema de sua bandeira - nação cuja ordem natural é o desastre e o progresso é mais lento que desfile de lesma.


Apesar desta axioma expressar algo notório sobre o progresso humano - a realidade foi prevista muitas vezes por alguns dos autores mais cultuados da atualidade (John Locke pela revolução francesa, Marx pela revolução industrial, Nietzsche pela modernidade, Tocqueville pela guerra fria, etc.), nem sempre as soluções dos personagens listados aos problemas de seu tempo foram corretas - o positivismo é uma doutrina que deve ser combatida, pelas razões básicas que definem a premissa das ciências naturais. Mas isto está fora do escopo do texto, cabe ao leitor decidir ao decorrer do texto: a cultuação dos mortos é pela predição visionária de eventos futuros ou pelo resultado direto de eventos por estes influenciados?


On ne connaît pas complètement une science tant qu'on n'en sait pas l'histoire

Newton? Joule? Ampère? Hertz? Pascal? Watt? Coulomb? Weber? Tesla? Celsius? Sievert? A história da ciência é raramente ensinada aos alunos das escolas e universidades do Brasil. E a afirmação de Comte - a de que não podemos conhecer uma ciência enquanto não conheçamos sua história é profundamente verdadeira: a história destes homens, suas medidas e experimentos expressam de maneira integral o significado e objetivo das ciências naturais. Quais problemas estes esperavam resolver ao se debruçar e discorrer sobre a natureza e seu modelamento? Tudo isso facilita de maneira colossal o entendimento da ciência natural e seu significado. Diversos visionários, como Röntgen, que resolveu o problema de inúmeros ortopedistas ao revelar a estrutura óssea por meio de raios-x, Benjamim Franklin e o problema da eletricidade, Tesla e o problema da distribuição de energia. Todos estes pensadores - com o ônus característico de sua época - representaram, através das ciências naturais, a necessidade da sociedade de solucionar problemas em suas respectivas áreas. Auguste Comte era um deles, e conseguiu reconhecer o que, segundo ele, era de mais necessário para a reconstrução moral de uma sociedade em crise causada por uma revolução tão sangrenta e sem sentido como a francesa - a ciência como religião.


Mas isto não garante a credibilidade de uma nova revolução científica secular, a ciência traz a premissa da faca de dois gumes: de ser útil, mas podendo, ao mesmo tempo, estar errada e incompleta.


O positivismo político liderou o estado brasileiro durante toda a primeira e segunda república, e o acreditar que resumir a sociedade como um sistema controlável, um sistema termodinâmico definido, até mesmo moldável ao gosto de alguns ideólogos teve consequências dramáticas no exercício da liberdade e responsabilidade direta no fim da dignidade da vida humana. O erro fica ainda mais evidente quando quando aqueles responsáveis pelo bem-maior de uma nação se apoderam do respectivo significado e valor da autoridade científica.


Apesar de termos a Ciência como bem maior, a Sars-Cov-2 mostrou que nem mesmo este bem, pelo qual a maioria das repúblicas nacionais estão construídas, está longe da manipulação de opiniões e à mercê de manifestações políticas: drogas eficientemente duvidáveis sendo recomendadas por poderes executivos, medidas profiláticas sendo ignoradas por governos nacionais, estudos sendo manipulados em direções arbitrárias por autoridades científicas do estado, medidas autoritárias sendo tomadas por governos locais ou medidas covardes e erradas sendo tomadas pela OMS.


A ciência não é um compilado de instituições, de chefes e donos. A ciência é grande demais para ser dominada por um episcopado de magnânimos - mais preocupados com sua própria segurança econômica e consequentemente alheios aos anseios globais de saúde, segurança e educação. A credibilidade das ciências naturais está no pior estado desde sua concepção, isso pela generalidade de opiniões equivocadas sobre sua existência e objetivo: cansamos de ouvir o tal "segundo a ciência isso, segundo a ciência aquilo", dizer que a ciência disse qualquer coisa é a antropomorfização de uma virtude. Comte errou ao acreditar que a política poderia basear-se na ciência sem esta ser engolida pela preferência da verdade conveniente e agradável - e portanto, política; enquanto que a verdade dura e triste é deixada de lado, empurrada de qualquer jeito, deixada a fermentar, crescendo descontroladamente até aparecer na nossa frente, monstruosa e invencível, após um hiato cronológico de dias, meses ou até mesmo anos de ignorância - como a Covid 19.


(aviso da comunidade científica sobre o novo Sars - o artigo determina que o consumo de mamíferos em mercados molhados [como o de Wuhan] é uma bomba relógio, vide Clin. Med. Rev., 2007 doi: 10.1128/CMR.00023-07).


"Every lie we tell incurs a debt to the truth, sooner or later that debt is paid"

'Valery Legasov' em Chernobyl (Craig Mazin, HBO, 2019)



Assim como Comte e a maioria dos ideólogos pró-revolução, que lutaram pela laïcité como princípio indispensável: a separação total da autoridade da igreja sobre o estado - devemos também lutar, a partir de agora, à luz da oportunidade que nos foi dada pelo Sars-Cov-2: a de separação total da autoridade do estado sobre a ciência.

 
 
 

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